A lógica e a incoerente no país da pasteurização mental
A Lógica chegou ao boteco da esquina com um artigo sob o braço, uma planilha no celular e uma esperança ridícula no peito: talvez, desta vez, conseguisse conversar com a Incoerente sem sair espiritualmente alfabetizada pelo avesso.
Erro primário.
Sentou-se à mesa, pediu um café sem açúcar e abriu uma pasta de gráficos. A Incoerente apareceu cinco minutos depois, surgindo do nada, como atualização de aplicativo que piora tudo. Usava uma camiseta com a frase: “Eu pesquisei no grupo do whatsapp”. Abaixo, em letras menores: “Logo, sei mais que especialistas”.
Sentou-se sem pedir licença, colocou os pés na cadeira ao lado e falou com a solenidade de quem acaba de descobrir a verdade última escondida atrás de um vídeo de três minutos com trilha dramática.
— Você viu o que estão fazendo com o clima?
A Lógica suspirou por dentro.
— O que estão fazendo com o clima?
— Inventaram. Antigamente tinha calor, frio, chuva e gente reclamando. Agora chamam isso de mudança climática para vender caneca ecológica e fazer a gente se sentir culpado por respirar.
— A mudança climática tem medições, séries históricas, aumento de temperatura média, derretimento de geleiras, eventos extremos…
— Medição é opinião com régua.
A Lógica ficou imóvel.
— Como?
— É isso mesmo. Hoje em dia tudo é medido. Temperatura, pressão, inflação, ignorância. Daqui a pouco vão medir até bom senso. Aí lascou, porque vão descobrir que acabou.
A Lógica apertou os lábios. Ainda era cedo para desistir, embora seu instinto de sobrevivência já estivesse pedindo demissão.
— Dados não são opiniões.
— Claro que são. Só que com jaleco.
A Incoerente pegou o cardápio, olhou com desconfiança e perguntou ao garçom se o pão de queijo tinha glúten, lactose, ideologia ou chip.
O garçom disse que tinha queijo.
— Suspeito — respondeu ela. — Muito suspeito.
A Lógica tentou recomeçar.
— Vamos por partes. Quando muitas fontes independentes chegam a conclusões semelhantes, isso aumenta a confiabilidade da informação.
— Ah, pronto. Agora você acredita em “fontes independentes”. Eu também tenho fontes. Uma tia do meu vizinho conhece um rapaz que trabalhou com o cunhado de um técnico que viu uma coisa estranha acontecendo num servidor.
— Que coisa?
— Estranha.
— Mas o quê?
— Se eu soubesse, não seria tão estranha.
A Lógica fechou os olhos por dois segundos. Foi o mais próximo que chegou de uma prece.
— Isso é boato.
— Não. Boato é quando os outros inventam. Quando eu recebo, é informação alternativa.
— Informação alternativa sem verificação continua sendo boato.
— Verificação é censura com crachá.
A Lógica olhou para o café. O café olhou de volta. Ambos pareciam arrependidos.
— Você entende que uma afirmação precisa de evidência?
— Evidência é coisa de gente insegura. Quem sabe de verdade sente no intestino.
— No intestino?
— Claro. O intestino é o segundo cérebro.
— Isso é uma metáfora biológica, não uma licença para raciocinar pelo cólon.
A Incoerente sorriu, vitoriosa.
— Está vendo? Você despreza o corpo. Muito cartesiana. Muito racional. Muito século passado.
— Racionalidade não é defeito.
— Depende. Tem gente tão racional que acredita na realidade.
A Lógica tentou mudar de assunto, como quem troca de vagão num trem pegando fogo.
— Vamos falar de eleições, então. Sem partido, sem torcida. Só processo, auditoria e instituições.
A Incoerente se inclinou para frente, baixou a voz e assumiu a expressão de quem estava prestes a revelar o que nem os maçons, os reptilianos e o grupo da família ousavam dizer antes do almoço.
— Eu sei como funciona. Eles deixam a gente votar só para parecer que a gente escolhe.
— Quem são “eles”?
— Eles.
— Mas quem?
— Se eu falar, você vai dizer que é teoria da conspiração.
— Talvez porque seja.
— Está vendo? Você já foi treinada para rejeitar a verdade antes de ouvir.
— Ou talvez eu esteja treinada para pedir prova antes de acreditar.
— Mesma coisa, só que com arrogância acadêmica.
A Lógica respirou fundo.
— Você percebe que qualquer pergunta vira prova da conspiração? Se eu peço evidência, você diz que estou condicionada. Se eu discordo, sou manipulada. Se eu concordo, você diz que finalmente acordei. Nesse sistema, você nunca erra.
A Incoerente bateu palmas.
— Agora você entendeu. Estou evoluindo.
— Isso não é evolução. É blindagem mental.
— Blindagem mental é importante. O mundo está cheio de fatos tentando invadir a nossa paz.
A Lógica olhou para o teto. Havia uma infiltração no canto. Por um instante, invejou a água, que ao menos obedecia à gravidade sem fazer discurso.
— E as vacinas? — perguntou, já sabendo que estava cutucando um vespeiro com estetoscópio.
A Incoerente abriu um sorriso piedoso.
— Eu não sou contra vacinas. Sou contra colocarem coisas dentro do meu corpo sem eu saber.
— Mas você comeu pastel de posto ontem.
— Aquilo era diferente.
— Diferente como?
— Tinha molho.
— Você não sabe nem o que havia naquele molho.
— Mas o molho não veio com bula.
A Lógica levou a mão ao rosto.
— A bula existe justamente para informar.
— Informação demais confunde. Eu prefiro a sabedoria popular.
— A sabedoria popular também recomendava passar manteiga em queimadura.
— E funcionava.
— Não funcionava.
— Funcionava emocionalmente.
A Lógica sentiu que uma parte de sua alma havia pedido exoneração do planeta.
A Incoerente continuou:
— Além disso, eu vi um vídeo de um sujeito explicando que certas doenças sumiram antes das vacinas.
— Algumas reduziram por saneamento, outras pelas vacinas. São fatores diferentes.
— Sempre esse negócio de “fatores diferentes”. Vocês complicam tudo para esconder a simplicidade.
— A realidade é complexa.
— A realidade é simples. Vocês que têm medo da verdade.
— Qual verdade?
— A que eu sinto.
— Sentimento não é método de validação.
— Para você, que deve ter trauma de intuição.
A Lógica ficou calada. Do outro lado do boteco, uma televisão sem som exibia uma reportagem qualquer. A legenda falava sobre economia, saúde, educação ou o apocalipse de sempre. Ninguém prestava atenção. Um homem na mesa ao lado opinava sobre tudo com a autoridade de quem nunca leu nada que o contrariasse. O ambiente inteiro parecia uma reunião de condomínio dentro da cabeça de um papagaio.
A Incoerente pegou o guardanapo da Lógica, dobrou em quatro e começou a mastigar.
— O que você está fazendo?
— Experimentando.
— Isso é um guardanapo.
— Para você.
— Para todo mundo.
— Pronto. Começou o autoritarismo alimentar.
— Guardanapo não é alimento.
— Essa é a sua narrativa.
A Lógica observou a cena com horror moderado. Já não era espanto. Era cansaço metafísico.
— Você está mastigando papel.
— Papel vem da árvore. Árvore é natureza. Natureza é saudável. Logo, guardanapo é salada seca.
— Isso é um crime contra a lógica.
— A lógica é uma construção social.
— Não, a lógica é uma estrutura formal do pensamento.
— Bonito. Parece frase de quem perdeu o contato com o povo.
A Lógica decidiu tentar uma última vez.
— Escute. O problema não é duvidar. Duvidar é saudável. O problema é duvidar de tudo que exige estudo e acreditar imediatamente em qualquer absurdo que venha embalado como segredo proibido.
A Incoerente parou de mastigar.
Por um segundo, pareceu tocada.
A Lógica quase se emocionou.
Então a Incoerente perguntou:
— Você tirou isso de algum grupo?
— Não.
— Então não confio.
A Lógica pagou a conta.
Levantou-se em silêncio, guardou seus gráficos, seu artigo, sua planilha e o que restava de sua fé pedagógica na humanidade. Do lado de fora, o céu estava azul. Azul demais, aliás. A Incoerente provavelmente diria que aquilo era edição de imagem feita pelo governo, pela mídia, pelos cientistas, pelas empresas de filtro solar ou por uma sociedade secreta de meteorologistas carentes.
No caminho para casa, a Lógica passou diante de uma vitrine e viu seu reflexo. Parecia cansada. Parecia honesta. Parecia, com tristeza técnica, uma personagem secundária num mundo em que o protagonista era um idiota convicto com boa conexão de internet.
Então compreendeu a lei amarga da época: discutir com a estupidez vaidosa é jogar xadrez contra um pombo que aprendeu a postar vídeo. Ele derruba as peças, suja o tabuleiro, bate asa, chama aquilo de vitória e ainda ganha seguidores.
A Incoerente, enquanto isso, já estava em outro boteco, explicando para uma plateia atenta que dois mais dois eram quatro apenas em “matemáticas tradicionais”, mas que, numa visão mais livre, poderiam ser um peixe-boi cósmico, três torradeiras emocionais ou uma opressão numérica.
E todos concordavam.
Porque a estupidez moderna já não se envergonha. Ela se organiza, cria canal, vende curso, abre comunidade, imprime camiseta e chama preguiça mental de pensamento crítico.
A Lógica chegou em casa, abriu o notebook, encarou a tela vazia e escreveu num post-it:
“Hoje perdi uma discussão para uma mulher que comeu meu guardanapo e chamou isso de autonomia epistemológica.”
Depois apagou a luz.
No escuro, por um instante, quase desejou que a lua fosse mesmo um holograma.
Seria menos constrangedor do que admitir que tudo aquilo era real.

Dalton é escritor, poeta, cronista, contista, jornalista do astral, médium, humorista incorrigível da consciência, que sente uma saudade incrível de seu planeta, e está ansioso para ser “puxado” pelo planeta Chupão. Alega: Não quero ficar com os “evoluídos”. Autor de 50 obras independentes: 5 de informática e 45 de espiritualidade sem religião e consciência. Engenheiro Civil, pós-graduado em: Educação em Valores Humanos e também em Estudos da Consciência com ênfase em Parapsicologia. Autor da obra SEU LIVRO PUBLICADO. É a obra mais grossa, mais completa e mais detalhada do mercado, sem concorrentes a altura: 404 páginas, principalmente baseado nas plataformas: Amazon, UICLAP e Clube de Autores. Obra ilustrada, com links e QR Codes. Com 112 imagens, 78 QR Codes, 187 links, 4 tabelas, e detalhes minuciosos e macetes raros que ninguém nunca contou antes. Todas as obras aqui: clube.consciencial.org (copie e cole no navegador). Todos os ebooks aqui: ebooks.consciencial.org (copie e cole no navegador).
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