Havia algo de cruelmente límpido no olhar de Paulo Leminski, como se a vida, em sua pressa de corroê-lo, tivesse deixado intacta apenas a lucidez. Aos 44 anos, o corpo já se despedaçava sob o peso da cirrose, mas a mente permanecia intacta, cortante, quase insuportável de tão clara. Era essa clareza que feria mais que a doença: saber-se vivo e ao mesmo tempo condenado.
Curitiba, sua cidade natal, parecia assistir ao espetáculo em silêncio. Os bares, as noites de poesia improvisada, os debates regados a cerveja, tudo ecoava como um passado próximo demais para ser memória e distante demais para ser presente. Leminski, poeta marginal e erudito ao mesmo tempo, jamais se permitiu caber em molduras. Misturava haicai japonês com gíria de rua, citações de Wittgenstein com palavrão, filosofia zen com samba-canção. Um alquimista da palavra em corpo de boêmio.
No entanto, a vida lhe cobrava caro. A entrega sem reservas, o corpo usado como território de experiências, a embriaguez não apenas do álcool, mas do excesso de tudo. Havia nele uma fome de viver que não se contentava com metade. O resultado foi previsível: o organismo, frágil, não suportou o ritmo. A cirrose avançou sem trégua, minando o físico enquanto deixava a mente irônica e brilhante, cada vez mais afiada.
Nos últimos meses, escrevia com urgência. Cada poema parecia saber-se derradeiro, como se ele tivesse consciência de que a vida não lhe concederia prorrogações. A lucidez era tamanha que se tornava dolorosa. Não havia espaço para ilusões: Leminski sabia que morreria jovem, como tantos que queimaram rápido demais, como se fossem estrelas condenadas a brilhar intensamente antes de apagar.
E foi assim, aos 44 anos, que a biologia decretou seu fim. A doença venceu o homem. O corpo já não suportava, e a morte chegou em 1989, fria, quase burocrática, como costumam ser as mortes que interrompem gênios antes do tempo.
Mas a poesia não se curvou. Sobreviveu. Expandiu-se. Depois de sua partida, Leminski se tornou ainda maior. Suas frases viraram estandartes, seus livros ganharam reedições, sua obra se infiltrou nas salas de aula, nas músicas, nas redes. Tornou-se um poeta de multidões sem jamais ter sido domesticado.
O que a cirrose devorou foi apenas a carne. O verbo, esse, permanece intacto. A lucidez que feria segue viva nos versos, como lâmina que continua a cortar muito depois da mão que a empunhava ter se fechado.
Paulo Leminski é prova de que o corpo pode ser vencido, mas a poesia, não.

Dalton é escritor, poeta, cronista, contista, jornalista do astral, médium, humorista incorrigível da consciência, que sente uma saudade incrível de seu planeta, e está ansioso para ser “puxado” pelo planeta Chupão. Alega: Não quero ficar com os “evoluídos”. Autor de 50 obras independentes: 5 de informática e 45 de espiritualidade sem religião e consciência. Engenheiro Civil, pós-graduado em: Educação em Valores Humanos e também em Estudos da Consciência com ênfase em Parapsicologia. Autor da obra SEU LIVRO PUBLICADO. É a obra mais grossa, mais completa e mais detalhada do mercado, sem concorrentes a altura: 404 páginas, principalmente baseado nas plataformas: Amazon, UICLAP e Clube de Autores. Obra ilustrada, com links e QR Codes. Com 112 imagens, 78 QR Codes, 187 links, 4 tabelas, e detalhes minuciosos e macetes raros que ninguém nunca contou antes. Todas as obras aqui: clube.consciencial.org (copie e cole no navegador). Todos os ebooks aqui: ebooks.consciencial.org (copie e cole no navegador).
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