ALMA DE ESCRITOR

Escrever é um ato de coragem. Não a coragem dos holofotes ou dos palcos, mas uma coragem silenciosa, íntima, que pulsa nas madrugadas em claro, nas folhas rasgadas e nos arquivos nunca publicados. A alma de escritor é feita de matéria invisível: observação, escuta, solidão fértil e uma inquietação doce que transforma o ordinário em extraordinário.

A alma de escritor não escolhe a escrita, ela é escolhida. É como se o mundo chegasse por meio de palavras, o cheiro de café, o rumor da chuva, o rosto envelhecido de um desconhecido no ônibus. Tudo vira frase, metáfora, personagem. O escritor vive duas vezes: a que acontece e a que é contada.

Mas essa alma também sangra. Há dias em que as palavras fogem, em que o medo da página em branco aperta o peito. Há a insegurança, quem sou eu para escrever?, e a comparação com vozes mais altas, mais límpidas. Escrever dói porque exige verdade. E poucas coisas assustam tanto quanto encarar os próprios abismos.

Muita gente confunde alma de escritor com sonho vaporoso. Ledo engano. Escrever é ofício, constância, suor. É sentar-se diante do teclado ou do caderno mesmo quando a inspiração resolveu tirar férias. É reescrever um parágrafo oito vezes, cortar a frase mais bonita porque ela não serve à história, aceitar que nem tudo que se escreve merece sobreviver.

O escritor verdadeiro desenvolve rituais: o café sempre no mesmo horário, a caminhada antes de escrever, a música sem letra para não roubar a atenção. São âncoras que dizem ao cérebro: agora é hora de criar. Alma de escritor não é dom, é entrega diária.

Escreve-se sozinho. Esta é a grande verdade incômoda. Ninguém pode colocar as palavras no lugar por nós. Nessas horas, a alma de escritor conhece um vazio particular, e aprende a habitá-lo. Mas não é uma solidão egoísta. O escritor solitário carrega o mundo dentro de si. Escreve para os outros, para o leitor que ainda não conhece, para a criança que um dia encontrará aquele livro na estante da biblioteca.

Há generosidade em ficar horas fechado num quarto, destilando sentidos. Porque escrever é doar pedaços de si. Cada personagem tem um pouco do autor. Cada conflito, uma ferida conhecida. Cada final, uma esperança (ou um luto) pessoal.

Publicar é outro parto. A alma de escritor, tão acostumada à penumbra do processo, estranha a claridade da crítica. O elogio acaricia, a indiferença dói, a crítica destrutiva pode paralisar. É preciso couro. Aprender que o livro, depois de publicado, pertence ao leitor. Cada um lerá com seus olhos, sua história, suas dores. O escritor precisa deixar ir.

Mas há magia quando alguém diz: “era exatamente o que eu sentia, mas não sabia colocar em palavras.” Nesse instante, a solidão do ofício ganha sentido. A alma de escritor sossega. O esforço teve propósito.

No fim, a alma de escritor não escreve por vaidade, dinheiro ou fama, embora essas coisas possam vir. Escreve porque precisa. Porque deixar de escrever seria como deixar de respirar. As palavras são o modo como organiza o caos, compreende o amor, atravessa a perda, celebra o que há de belo neste mundo frágil.

Se você sente essa inquietação, essa necessidade de nomear o mundo, bem-vindo. A alma de escritor não se mede por livros publicados ou prêmios na estante. Mede-se pela coragem de, todos os dias, voltar à página em branco. E nela depositar um pouco de verdade.

Escreva. Nem que seja uma linha. O mundo precisa da sua voz, ou melhor, de suas linhas…

Dalton Campos Roque, escritor efêmero, mas poeta consciencial eterno .


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