Tem uma frase perigosa que todo escritor independente já soltou, geralmente num momento de pura alucinação provocada por café coado e falta de sol.
“Pronto. Finalmente terminei.”
Eu mesmo já disse isso umas quarenta e sete vezes. Sempre no mesmo tom de quem acaba de escalar o Pico da Neblina de chinelo de dedo. E sempre, invariavelmente, cinco minutos depois, meu cérebro, esse órgão traidor, resolve me lembrar que “terminar o livro” é só o primeiro degrau de uma escada que desce direto para o centro da Terra.
Vamos aos fatos.
Sou escritor independente. Isso soa bonito, meio Érico Veríssimo, meio lobo solitário do Pantanal. Na verdade, significa que morro de pijama, tenho um vira lata que dorme em cima do meu teclado e faço absolutamente TUDO sozinho. Tudo. Não é força de expressão. É tragédia mesmo.
Terminei o romance. 240 páginas. Personagens redondos, diálogos afiados, reviravolta que faria o Jorge Amado bater palmas. Comemorei com um gole de café frio e uma olhada no relógio: 3h17 da madrugada. Beleza. Durmo feliz.
Acordo no outro dia. Abro o arquivo.
Pai do céu.
Quem escreveu essa coisa horrorosa? A vírgula fugiu do parágrafo três como se tivesse visto assombração na Casa Verde e Amarela. O personagem secundário trocou de gênero no meio do capítulo onze. E tem uma frase, juro por Deus, que termina com duas preposições e uma nostalgia inexplicável, igual ponta de chiclete no tênis.
Começa a diabr… quer dizer, a diagramação.
Gente, diagramar um livro sozinho é a experiência mais próxima de tentar ensinar uma galinha a usar talher. As margens não obedecem. O espaçamento endoida. O número da página resolve pular do 87 para o 89 porque “não tava a fim”. O software de diagramação ri de mim. Eu juro que ouço risadinhas eletrônicas, daquelas de filme de terror vagabundo.
Três dias depois, a diagramação está pronta. Mais ou menos. Respiro fundo. Formatação para e book. Outro inferno. O arquivo que fica lindo no computador vira uma salada nordestina sem sal no celular. Alguém me explica por que o título aparece em negrito, itálico, sublinhado e arrependimento no Kindle?
Passo pela revisão. Revisão que eu mesmo faço, claro. Já percebeu o problema? É igual juiz de futebol apitando o próprio jogo e ainda dando cartão pra si mesmo. Não funciona. Mesmo assim, leio cada parágrafo umas dezenove vezes. Troco “mas” por “mais”. Descubro que usei “fazem” cinco anos num trecho da página 43. Choro um pouquinho, desses choro de novela das seis.
Ilustrações? Precisa de um mapa? Claro que precisa. Desenho eu mesmo. Não sei desenhar. O mapa fica parecendo um pastel de vento amassado. Mas vai assim mesmo. Estética autoral, uai.
Capa. Ah, a capa. Pago três dias tentando fazer uma capa decente no Canva. Resultado: uma tipografia que parece convocar o capeta e uma foto de banco de imagens que já foi usada em 47 e books de autoajuda, 12 receitas de bolo de cenoura com calda de chocolate e 2 perfis falsos no Tinder. Minha capa não vende o livro. Ela pede desculpinha.
Sinopse: doze linhas que resumem a história perfeita. Eu escrevo. Reescrevo. Parece contracheque de professor: confuso e triste. Reescrevo de novo. Agora ficou metida a besta. Na sétima tentativa, a sinopse está… aceitável. Orelha? Meu livro tem orelha? Não tem nem orelha de verdade, mas eu invento uma. Falo bem de mim mesmo na terceira pessoa. É tão constrangedor quanto contar vantagem em churrasco de família.
Ficha catalográfica? Registro? Vou atrás. Preencho formulários que parecem prova de concurso público. Descubro que preciso de um ISBN para cada formato, capa dura, brochura, e book e talvez até pra versão em braile. Quase choro de novo, mas dessa vez com raiva.
Aí finalmente, finalmente, subo o arquivo na plataforma de impressão sob demanda. Aperto “publicar”. O site diz: “Seu livro estará disponível em 72 horas.”
Eu apago todas as velas do Centro. Acendo um incenso de patchouli que a vizinha me deu no Natal. Fico em frente à tela, igual idiota esperando Sinal de TV digital.
Sessenta e duas horas depois, recebo a notificação. Está lá. O link. Meu livro. Meu neném.
Compro um exemplar. Pagando frete. Sou meu próprio fã número um, réu primário e testemunha de defesa.
Chega pelo correio o livro físico. Abro a caixa como quem abre o ovo da Páscoa da Cacau Show. Tiro o livro. Enfio o nariz nas páginas. Cheiro de papel novo, cheiro de vitória, cheiro de “falei que ia conseguir”.
Leio a primeira página.
Imediatamente tenho quatorze ideias novas para melhorar o enredo. Percebo um erro conceitual grave no terceiro capítulo. O personagem que eu achei que estava redondo não está. Ele precisa de mais camadas, igual cebola de pastel feira. Na verdade, o livro inteiro podia ser reescrito sob uma nova ótica filosófica que acabei de descobrir lendo um comentário no Reels do Instagram.
Dou um sorriso amarelo. Abro o notebook.
E começo tudo outra vez, porque não tem jeito.
A alma de escritor independente não é teimosa. É apaixonada mesmo. E completamente, irremediavelmente, maravilhosamente maluca da cabeça.
(Texto revisado, diagramado, caprichado, abençoado por São Jorge e com sotaque de autor brasileiro raiz. Possíveis erros de revisão são, na verdade, estilo literário. Pelo menos é o que eu repito pra mim mesmo tomando um gole de café passado na meia.)
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