O CAUSO ESTRANHO DE ZÉ FUMAÇA

Crônicas de Minas Gerais

Claro, pode sentar que lá vem história. Puxa um banquinho, aceita um café, que esse causo que vou te contar aconteceu lá pras bandas de Turmalina, num lugar chamado Grota do Silêncio, onde o vento assobia fino e as pedras guardam mais segredo que padre em confissão.

O povo de lá conta que existia um sujeito chamado Zé Fumaça, não porque pitava, mas porque vivia sumindo e aparecendo que nem neblina. Zé Fumaça era um sujeito quieto, de pouca prosa e muito mistério. Ele tinha um ofício esquisito: era “afinador de rio”.

“Uai, afinador de rio?”, você me pergunta. Pois é. O povo dizia que o Rio Jequitinhonha, quando passava pela grota, às vezes desafinava. As águas ficavam tristes, corriam lentas demais, ou então se enfureciam sem motivo, fazendo um barulho que espantava os peixes e azedava o leite das vacas na beira.

Era nessas horas que chamavam o Zé Fumaça.

Ele chegava na beira do rio, sem vara, sem rede, sem nada. Levava só uma viola velha, de jacarandá, que diziam ter sido feita com madeira de uma canoa que nunca afundou. Zé Fumaça sentava numa pedra lisa, olhava pro curso d’água com um respeito de quem encara autoridade e começava a tocar.

Não era música de festa, não. Era um ponteado lento, sentido, uma nota de cada vez. Ele tocava uma nota e esperava. O rio, então, respondia. A água fazia um “vór-vór-vór” mais grosso ou mais fino. Zé Fumaça ouvia, coçava o queixo, e tocava outra nota, um pouco mais alta, um pouco mais baixa.

Ele passava horas nisso, numa conversa de viola e correnteza que ninguém entendia. O povo ficava de longe, só espiando. Diziam que ele estava afinando o rio, encontrando a “nota certa” da água.

A mentira cabeluda mesmo, o povo jura de pé junto que aconteceu numa seca medonha. O Jequitinhonha tava tão magro que parecia uma lombriga de terra. As pedras do leito estavam todas de fora, brancas, quentes, parecendo osso de defunto. Não tinha reza, não tinha promessa que fizesse chover.

Foi aí que o coronel da região, um homem bruto que não acreditava nem em topada em dedo mindinho, mandou chamar o Zé Fumaça.
“Zé”, disse o coronel, “se você é bom mesmo, afina esse rio pra ele cantar a música da chuva.”

Zé Fumaça não disse nem que sim, nem que não. Foi pra beira do rio seco, sentou na sua pedra e começou a tocar. Mas dessa vez, a viola não chorava, ela gritava. Era um som agudo, comprido, que parecia que tava rasgando o céu. Ele tocou o dia inteiro. O sol queimava e o suor escorria, mas o homem não parava.

Quando a noite caiu, uma coisa esquisita aconteceu. As pedras do leito do rio começaram a brilhar. Primeiro um brilho fraco, depois uma luz azulada, leitosa, que parecia que a lua tinha se quebrado em mil pedaços e caído ali. E então, as pedras começaram a vibrar, a zumbir, cada uma num tom diferente.

Zé Fumaça, então, parou de tocar a viola. Ele levantou, foi andando pelo leito seco e começou a “tocar” as pedras. Ele batia numa pedra com o nó do dedo, e ela fazia “DÓÓÓ”. Batia em outra, e ela fazia “RÉÉÉ”. Ele foi correndo de pedra em pedra, feito um menino pulando amarelinha, e no meio daquele silêncio, uma melodia começou a subir da terra. Era a melodia do próprio rio, uma música feita de pedra e de saudade da água.

E foi aí, meu amigo, que o céu, que tava limpo e estrelado, começou a se nublar. Não era nuvem de chuva, era nuvem de poeira de estrela. E lá do alto, em vez de pingo d’água, começou a cair nota musical. Umas notas pretinhas, que batiam no chão e viravam uma poça d’água na hora.

O povo da Grota do Silêncio, até o coronel, viu chover música a noite inteira. Na manhã seguinte, o Rio Jequitinhonha não tava só cheio, não. Ele corria afinadinho, cantando a música mais bonita que já se ouviu, e dizem que, por uma semana, quem bebesse daquela água saía assobiando sem nem saber a canção.

Zé Fumaça? Uai, sumiu na enchente. Dizem que ele não morreu, não. Virou uma nota musical e hoje vive correndo dentro do rio, garantindo que ele nunca mais desafine.


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