O SILÊNCIO DAS CURANDEIRAS – CONTO

Um romance sobre segredos, fé e a força das mulheres em uma cidade dividida

Parte 1 – A Febre que Abalou Vila do Rio Seco

A tarde se espichava sobre Vila do Rio Seco num bafo quente que grudava na pele como cola de sapateiro. Na varanda da imponente — e já meio carcomida — fazenda dos Oliveira, Júlia, quinze anos recém-feitos, tremia de uma febre tão alta que poderes antigos pareciam soprar-lhe labaredas pelo corpo. O lençol de linho, encharcado de suor, grudava-lhe às coxas, e cada espasmo fazia ranger as tábuas do assoalho. Entre delírios, a menina repetia frases que eram cacos de um segredo familiar:

— …o cetim azul, mãe… queima… não pisa na folha seca… pai, por quê?…

Dentro do quarto, o doutor Cardoso abanava-se com o chapéu de palha, trocando olhares aflitos com Pedrão Oliveira. Latas vazias de tônicos importados jaziam sobre a cômoda — aromáticos, caros, inúteis. Pela porta entreaberta, Dona Elvira espionava, os lábios repuxados num sorriso mínimo, quase cruel. Não media a febre da filha, mas o tamanho da lição que a vida parecia enfim dar ao marido.

A quilômetros dali, no Bar do João, Creuza batia com a lateral do facão numa tábua, cortando uma generosa fatia de queijo coalho. Ao ver Zefa se aproximar com a bacia de roupas para entregar, baixou a voz:

— Isso não é coisa de médico, não, mulher. Aquela pequena era gordinha, corada que nem novilha prenhe. Agora definha. Mas não é demanda de fora, tô lhe dizendo. É veneno de dentro, que uma hora transborda.

Zefa, que conhecia as cordas de estender pecado por toda a vila, piscou:

— Veneno de quem? — e ergueu a sobrancelha, divertindo-se com o poder de espalhar a dúvida.

Creuza deu de ombros, encostou o facão, puxou o pano do ombro e limpou as mãos:

— Olha, Pedrão tem bolso fundo, mas coração raso. E mágoa de mulher enganada cria um mofo que adoece a casa inteira. Vê se me entende.

Nesse instante, o porteiro da usina passou correndo, ofegante:

— A menina piorou! Tá delirando que nem bote corroído! — gritou antes de desaparecer rua abaixo. A notícia se propagou como rastilho de pólvora, e cada esquina acrescentou um tempero novo: castigo divino, mau-olhado, erva errada, amante vingativa.

Do púlpito, Padre Jesuíno sentiu o cheiro de oportunidade subir como incenso barato. No sermão da noite, cravou o cajado:

— Meus filhos, o maligno ronda nosso redil! Ele se esconde na alma dos que traficam rezas pagãs e vivem em pecado! Quem tem ouvidos, ouça!

Na última fila, Lili, sentada em postura impecável, esboçou um sorriso discreto. A luz dos lampiões realçava-lhe a pele morena e o quadril largo que não cabia direito no banco de madeira. Sentia todos os olhos masculinos deslizarem por ela — alguns beatificando, outros pecando. Lili levantou-se antes do “Ite missa est” e saiu num bailado insinuante, o vestido verde-garrafa marcando as curvas generosas que alimentavam fantasias silenciosas. Quando passou pela praça, o alfaiate mascou um “Ave-Maria” tão lascivo que precisou cuspir o fumo para não se engasgar.

Parte 2 – As Sombras do Passado

Gerardinho, a quem ninguém prestava contas, instalarase na sarjeta com a garrafa de cachaça Relâmpago, edição suspeita. A lua, fina e torta, pendurava-se sobre a vila. Ele viu primeiro uma sombra, depois um clarão de tecido acetinado. Por um segundo, pensou ver uma santa processional, mas o rebolado contradizia a beatitude:

— Cetim… azul-escuro… balançando que nem sino na procissão — sussurrou, olhos esbugalhados. Era uma mulher, e ela carregava uma tigela de barro com um gesto deliberado, quase ritualístico. O cheiro adocicado de um perfume que não era da roça — jasmim com pimenta, talvez — ficou grudado em suas narinas. Girou na calçada tentando classificar aquele odor fino que lembrava coisa proibida, depois apagou feito lampião sem querosene.

Na casa grande, Elvira lustrava a prataria como se esfregasse a própria alma para arrancar uma mancha. Cada vez que o pano encontrava o metal, ela lembrava a risada de Pedrão quando trouxera para dentro de casa um lenço de cetim azul — “presente de um cliente”, dissera. Quando descobriu a verdade — e a barriga de Maria do Carmo crescendo —, Elvira engoliu o escândalo e costurou silêncio na boca. Agora, polia talheres com fúria contida, os pensamentos gotejando como cera quente:

— Quebra o orgulho dele, Senhor. Usa a vergonha como chicote, mas faz Ele sentir o peso de tudo. — A oração saiu como um veneno, e atrás dela, a vela do oratório tremeluziu, como se desconfiada daquela prece estranhamente afiada.

Ao mesmo tempo, Mané recolhia cascas de pau-d’arco e folhas de guiné. A mata não sussurrava sobre demônios, mas sobre feridas humanas abertas, infeccionadas. Quando uma pedra estilhaçou-lhe a janela, respirou fundo: a mesma mão que atira é a que suplica cura quando a doença visita. Tombou a pedra na mesa e, com um giz de cor roxa, desenhou um círculo de proteção ao redor da porta. Não era para afastar maus espíritos, mas para lembrar os humanos de que a maldade tem ida e volta.

Parte 3 – Alianças Perigosas

O relógio da torre anunciou dez badaladas quando Mané bateu na porta lateral da farmácia. Lili abriu com um clique rápido. Usava um robe de seda vinho que abraçava seu corpo violão e deixava à mostra apenas o necessário — suficiente para Mané vacilar meio segundo. Ela reparou e sorriu com uma ponta de perversidade:

— Entre antes que alguém nos catalogue como parte de uma nova fofoca — murmurou.

A farmácia cheirava a cânfora e cravo-da-índia. Lili deslizou os dedos pelos frascos de morfina como quem acaricia uma fileira de soldados disciplinados. Mané pigarreou:

— Dona Lili, a doença da menina não vem de fora. Ela bebe do ódio que mora naquela casa. É uma febre de alma, que adoeceu a carne.

Ela encostou-se no balcão, o quadril marcando a madeira, e cruzou os braços sob o busto, provocando leve tensão no tecido do robe:

— E estão usando você de bode expiatório — completou, os lábios vermelhos contornando cada sílaba. — Descobri hoje que Elvira veio bisbilhotar. Nada comprou. Só feriu meus vidros com o olhar. Mulher ferida sangra vingança.

— Mas tem o cheiro de outra pessoa nesse angu — acrescentou Mané. — E se a dor de uma acendeu o pavio que outra preparou? O feitiço pode ter buscado Pedrão e acertado Júlia por ricochete.

Antes que Lili respondesse, o cambaleio de Gerardinho surgiu na porta:

— Eu sei quem atiçou esse cão! — anunciou, apontando o dedo ossudo. — Maria do Carmo, a costureira de mãos mágicas e ventre expulso. Eu vi o rebolado dela no escuro, vestido de cetim azul abanando promessa de inferno!

Lili franziu o cenho:

— Gerardinho, você mistura pinga com profecia. — Pegou um copo d’água e duas gotas de tintura de boldo. — Bebe. Depois conta devagar.

Ele bebeu fazendo careta, mas a língua pareceu se liberar:

— Dona Lili, eu juro pela alma do meu vira-lata: era ela. Voltou mais magra, olhos de onça. E carregava uma tigela… dentro, terra preta e um laço de fita. Escutei-a sussurrar o nome de Pedrão…

Mané e Lili trocaram um olhar cúmplice. A peça que faltava. Maria do Carmo não criara a doença, mas dera a ela um caminho, um empurrão. Em segundos, montaram um plano: ele, ferver ervas de ruptura e purificação; ela, preparar soro e quinino para sustentar o corpo enquanto a alma era limpa.

Lili conduziu Gerardinho até a porta dos fundos. Quando voltou, percebeu Mané observando-a. O olhar dele ainda se prendia nas curvas de seu robe. Ela arqueou a sobrancelha, divertida:

— Concentre-se, rezador. Depois que salvarmos a menina, talvez eu te permita escolher um perfume novo para mim — provocou, piscando.

Ele sorriu largo, e a força do terreiro inteiro pareceu entrar na farmácia.

Parte 4 – A Verdade entre Ervas, Sangue e Promessas

Ao alvorecer, Mané bateu às portas da fazenda com um cesto de ramos: arruda, cipó-mil-homens, folhas de abre-caminho. Lili veio logo atrás, carregando uma maleta de metal reluzente. A criada hesitou, mas a febre de Júlia era tão alta que Pedrão cedeu, desesperado.

No quarto, o ar cheirava a louro queimado e lençol molhado. Enquanto Lili colocava o cateter no braço fino da menina, Mané desenhou símbolos de proteção com sumo de folha no chão, entoando um ponto baixo, quase ronronado. Dona Elvira, parada na porta, observava cada gesto com olhos de gelo, até que Lili ergueu o queixo e a encarou:

— Mãe, o veneno que a adoece pode ter sido destilado aqui dentro. Se quer ajudar, reze por perdão, não por justiça. Se não confia, reze calada lá fora. — O timbre firme da farmacêutica fez Elvira recuar, atingida. A palavra “veneno” a fez estremecer.

Elvira pensou em retrucar, mas abaixou a cabeça e saiu. Pedrão, perplexo, recuou dois passos. Fora ensinado a mandar; aquela mulher de quadril exuberante e olhar firme acabara de tomar o comando de sua casa.

A noite seguinte trouxe trovões. Na varanda, Gerardinho contava piadas para espantar o medo:

— Se esse feitiço fosse bom mesmo, curava ressaca — zombava, enquanto Zefa lhe passava café forte.

Lá dentro, Júlia estremeceu, os olhos viraram para cima. Mané aumentou o canto, a voz enchendo o quarto, e Lili aumentou o fluxo do soro. A febre quebrou como cristal ao chão: o suor da menina tornou-se frio, a respiração aquietou-se. De repente, ela abriu os olhos, lúcidos.

— Cadê meu vestido de festa, mãe? — murmurou, confusa.

Exaustos, Mané e Lili se olharam. A tempestade lá fora e a do quarto haviam passado. Lili pegou um pano úmido e, com uma delicadeza inesperada, passou-o na nuca suada de Mané. Ele se arrepiou. Ela se aproximou, a boca quase tocando sua orelha.

— Cuidado com esse seu canto, rezador — sussurrou, a voz rouca de cansaço e algo mais. — Quase me fez esquecer qual era a febre que eu precisava curar.

Lá fora, o vento calou as cigarras. E o boato da cura voou em trote alado.

Padre Jesuíno apressou-se a bater sinos e proclamar milagre divino. Mas o povo, que vira a sensual Dona Lili recostada na porta da fazenda e o rezador entrando com galhos fumegantes, sabia de onde soprava o alívio. A devoção do padre soou oca.

Dois dias depois, na praça central, Pedrão subiu numa caixa de feira. Confessou o caso, a gravidez de Maria do Carmo, a expulsão covarde, o medo do escândalo que adoeceu sua casa e quase matou sua filha.

Elvira, trajando preto severo, adiantou-se, para surpresa de todos:

— Não me olhem como mártir — disse, a voz firme varrendo o público. — Sou pecadora também, pois meu ódio ajudou a alimentar essa doença. Mas não toco na filha que pari. Creiam: a praga original mora debaixo desse chapéu caro! — e apontou para o marido. O murmurinho subiu pelas janelas, derrubando os últimos andaimes da reputação de Pedrão Oliveira.

Naquela tarde, Maria do Carmo foi vista na estação, esperando o ônibus velho. Levava consigo uma trouxa e o ventre vazio — a gravidez não vingara. Quando o ônibus parou, seu olhar cruzou a praça e encontrou o de Elvira por um instante. Não houve ódio, nem triunfo. Apenas um reconhecimento mudo de dores compartilhadas. Então, subiu no ônibus e partiu, deixando para trás apenas a lenda e um cheiro de jasmim-pimenta no ar.

Epílogo – O Silêncio que Restou (e o que ainda cochicha)

Em Vila do Rio Seco, muito se fala cochichado agora. A farmácia de Lili tornou-se escola de misturas exóticas e conselhos diretos; o terreiro de Mané recebe visitas discretas de gente que antes só se benzia na igreja. Entre os dois, há uma troca de segredos — e, às vezes, de olhares mais calorosos que chá de hortelã na varanda ao entardecer.

Quando a vila cochicha sobre o quadril generoso de Dona Lili e seu robe de seda, ela sorri de canto, ajeitando um frasco na prateleira:

— Meu remédio é forte. Quem não estiver preparado, que não prove — diz, sacudindo os vidros, fazendo os homens engolirem em seco.

Gerardinho, agora orgulhoso de sua cachaça de melhor qualidade, vigia o vaivém como um guardião irônico:

— Nesse lugar, santo é quem sabe calar na hora certa e curandeiro é quem sabe a hora de fazer o outro falar — filosofa, brindando à lua.

Na casa grande, o silêncio conjugal é áspero como lixa. Júlia, debruçada na janela, aperta o terço de contas de açaí que Lili lhe deu. Às vezes, quando a noite desce, ela ainda pensa ver um vulto de vestido azul perto do portão. Então fecha os olhos e dorme — sem febre, mas com a memória do fogo.

Vila do Rio Seco aprendeu que reza, remédio e amor-próprio podem dividir o mesmo frasco. E, embora as cicatrizes se fechem devagar, há quem jure ouvir, ao longe, um canto misto de ladainha e gargalhada — sinal de que Lili e Mané, ciência e fé, continuam, lado a lado, curando feridas visíveis e invisíveis, embalados por um silêncio que, no fundo, nunca é total.

Dalton Campos Roque – @Consciencial – Consciencial.Org


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